Criança sendo atendida em acompanhamento médico e infantil na Holanda

Acompanhamento médico infantil na Holanda

5
(10)

Poucos assuntos rendem tanta apreensão entre pais expatriados quanto o acompanhamento médico infantil na Holanda. Especialmente entre aqueles acostumados, no Brasil, a serviços particulares ou prestados por convênios. Portanto, neste artigo vou falar sobre o assunto com a visão de médica pediatra e mãe – junto a algumas opiniões que coletei de outras brasileiras na mesma situação.

O sistema de saúde na Holanda é privado, operado por seguradoras de saúde. Toda a criança e adolescente de até 18 anos (ou até entrar no mercado de trabalho, se isso ocorrer primeiro) tem atendimento médico e odontológico garantido pelo mesmo plano obrigatório que seus pais pagam, sem que nenhum valor adicional seja cobrado por isso.

Porém, diferentemente do Brasil, isso não garante liberdade na marcação de consultas ou idas à emergência, por exemplo. Há um esforço para que uma boa porcentagem dos casos seja resolvida no consultório em horário comercial, deixando os hospitais livres para situações realmente urgentes.

Conceitos básicos do sistema de saúde na Holanda

  • Huisarts: é o médico clínico-geral, cujo serviço é coberto por todos os planos de saúde. Atende a família inteira, de recém-nascidos a idosos, quando houver sinais e sintomas de doença. Se necessário, solicita exames e encaminha para especialistas ou para um serviço de urgência.
  • Consultatiebureau: também conhecido como GGD em algumas cidades holandesas, é o atendimento realizado por médicos (jeugdartsen) e enfermeiras (verpleegkundigen). Este serviço não é garantido pelas seguradoras, mas sim pelo RIVM (Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio ambiente). Vamos falar mais sobre esse serviço logo abaixo.
  • Kinderarts: é o médico pediatra. Por ser considerado um especialista, as crianças só têm acesso a ele com encaminhamento do huisarts.

Uma boa primeira impressão

Minha reação inicial ao acompanhamento médico infantil na Holanda foi de encantamento. Menos de um mês após nosso registro na prefeitura da cidade onde moramos, minha filha, então com 2 anos e meio, já tinha recebido visita domiciliar de uma enfermeira.

Leia também:  A religião no processo de adaptação na Europa

Logo depois, já com sua carteirinha de vacinas holandesa em mãos, foi convidada a receber uma quarta dose da imunização contra hepatite B no Consultatiebureau mais próximo da nossa casa. Nesta mesma visita, ela teve seu desenvolvimento avaliado.

Quando completou 3 anos, foi novamente convocada para uma consulta para observação do crescimento, desenvolvimento e triagem oftalmológica. Como até o momento ela não ficou doente (ufa!), não tivemos experiência pessoal com nosso huisarts.

Bebê sendo avaliado em consultório médico na Holanda
Foto de Dragos Gontariu no Unsplash

Conhecendo melhor o Consultatiebureau

As crianças de 0 a 4 anos recebem assistência voltada para a puericultura. Ou seja, ela tem acompanhamento integral da saúde com o objetivo de detectar precocemente alterações de crescimento, nutrição e desenvolvimento neuropsicomotor.

Os profissionais atuam por atendimentos agendados e também respondem dúvidas e questionamentos por telefone, e-mail ou presencialmente em horários predeterminados. Também realizam visitas domiciliares quando necessário.

Geralmente, o recém-nascido recebe a equipe em casa duas vezes para coleta do teste do pezinho, triagem auditiva e primeiro exame de saúde. O restante da avaliação acontece no consultório quando a criança tiver 1, 2, 3, 4, 6, 7 e meio, 9, 11, 14, 18, 24, 36 e 46 meses (13 consultas no total).

No mesmo local estão disponíveis as vacinas preconizadas pelo sistema nacional de imunizações.

É um serviço bastante elogiado, mas não isento de críticas. Realizando uma rápida pesquisa num grupo Mães Brasileiras na Holanda no Facebook, estes foram os pontos negativos mais citados:

  • Consultas pouco frequentes: a maioria gostaria que o atendimento fosse mensal no primeiro ano de vida e se estendesse além dos 4 anos de idade
  • Ausência de pediatra: apesar de os médicos serem treinados em assistência à saúde da juventude, não são especializados em Pediatria
  • Não há profissional fixo no atendimento: dificilmente a criança é avaliada pelo mesmo jeugdarts ou verpleegkundig todas as vezes ao longo do acompanhamento
  • Orientações padronizadas e não baseadas nas particularidades de cada criança e na individualidade de cada família
Leia também:  As dores e delícias do parto no exterior
Menina em aparelho de oftalmologia
Foto de NRD no Unsplash

Os polêmicos huisartsen

Os principais médicos holandeses sempre costumam ser assunto nas rodas de conversa brasileiras, e nem sempre de forma agradável. Abaixo estão as maiores dificuldades citadas na pesquisa com um grupo de Mães Brasileiras na Holanda, no Facebook:

  • Necessidade de bastante assertividade por parte dos pais para conseguir ter as queixas valorizadas
  • Não serem especialistas em crianças, especialmente recém-nascidos
  • Baixa taxa de solicitação de exames e encaminhamentos para especialistas
  • Consulta muito rápida e, por vezes, objetiva demais

A boa notícia é que a satisfação com o sistema de saúde na Holanda parece aumentar conforme os anos passam e o expatriado está mais adaptado à cultura e ao idioma local.

 É importante garantir um huisarts com quem se consiga boa comunicação e confiança nas condutas. Portanto, não hesite em buscar outro profissional se não estiver se sentindo confortável.

Acompanhamento médico infantil na Holanda na visão de uma pediatra

Ainda tenho pouca experiência prática com o sistema de saúde holandês, mas já observo virtudes e defeitos. Acredito que a utilização dos hospitais e equipamentos mais avançados somente para os casos de maior necessidade seja um grande exemplo a ser seguido. A atenção à infância, porém, é um ponto que não me deixa completamente satisfeita.

Quem teve sua formação voltada para a saúde dos pequenos (e aqui não falo apenas de médicos, mas também de enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, etc.), sabe o quanto o universo infantil é específico. Crianças não são miniadultos e devem ter suas particularidades muito bem entendidas.

Minha maior ressalva ao sistema de saúde holandês, portanto, é o difícil acesso aos kinderarts. Toda criança do mundo deveria ter um pediatra competente e bem atualizado para chamar de seu, e nos Países Baixos não deveria ser diferente.

Leia também:  Sobre criar filhos em Portugal: prós e contras

E você, já teve alguma experiência do atendimento médico infantil na Holanda ou no país europeu onde você mora? Conta aqui nos comentários pra gente.


Queremos saber o quanto esse artigo foi útil pra você!

Por favor, deixe sua avaliação.

Resultado 5 / 5. Número de votos: 10

Seja o primeiro a avaliar...

Nós lamentamos muito que você não está satisfeita com o artigo.

Ajude-nos a escrever artigos mais úteis e informativos!

Por favor, deixe sua sugestão em como melhorar esse artigo.



Artigos relacionados

1 comentário

  1. Joane!
    Muito legal compartilhar tuas vivências e reflexões como mãe e pediatra! O olhar amoroso e ao mesmo tempo crítico e fundamentado da especialista!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.