mulher sentada contemplando o horizonte, pensando sobre morar fora

Morar fora e o mergulho para dentro de nós mesmas

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Perto de fazer um ano longe do Brasil, trago essa reflexão, a maior de todas que já tive em minha vida: como eu me conheço mais agora! Como, compulsoriamente, eu tive que entender quem eu sou de verdade para não enlouquecer, evitar um surto, manter meu casamento, minha filha e minha vida em equilíbrio. Porque morar fora é isso: um mergulho para dentro de nós mesmas.

Eu não sei de você, mas eu tive que resignificar muitos padrões de pensamentos que eu tinha até o ano passado. Desde hábitos superficiais, como ficar com as unhas sem fazer, até entender que eu preciso passar tempo de qualidade com a minha filha, e não apenas mantê-la viva e saudável, foram muitos processos intensos e descobertas. Sozinha, longe da minha família e amigos, com meu marido estudando o dia inteiro quase todos os dias, tive praticamento um tratamento de choque que culminou em muito autoconhecimento.

mulher pensativa, refletindo sobre morar fora do Brasil
Morar fora pode ser um mergulho pra dentro de nós mesmas
Fonte: Dana Tentis para Pixabay

O que fiz para não surtar

Como meu marido veio para a Holanda para estudar um MBA com metade da bolsa que pagava apenas o curso, tínhamos um orçamento super limitado. Ou seja, eu não podia ter gastos extras com nada, praticamente. Então, posso listar aqui algumas atitudes que foram essenciais tanto para eu não surtar de vez quanto, melhor ainda, para me conhecer cada vez mais.

  1. Busquei muito apoio e li as experiências de outras mães nessa situação de mudança de país, na mesma localidade em que eu estava, em grupos de Facebook e WhatsApp e perfis do Instagram. Pesquisei, até mesmo antes de me mudar, por palavras-chave como por exemplo “mães na Holanda” (inclusive foi assim que conheci a Paula Zenere, minha parceira no projeto Mães Brasileiras na Holanda :D).
  2. Procurei também na internet por grupos locais que tinham a mesma crença que eu (pode ser uma igreja ou outro templo religioso, uma doutrina, filosofia ou até mesmo alguma prática, como grupo de estudos e meditação. Ou seja, algo em que você acredita). Assim, de vez em quando e com o apoio do meu marido, eu poderia ir ao encontro deles e me fortalecer um pouquinho.
  3. Comprei um bicicleta. E eu me arrependo amargamente de não ter feito isso assim que cheguei, em outubro de 2017. Somente seis meses depois uma bicicleta já com cadeirinha praticamente caiu no meu colo e, por isso, tive que tomar coragem para sair pedalando pela cidade com a minha filha. E qual a sensação que tive quando, depois de umas três voltas, perdi o medo? Liberdade, ainda que tardia! E um pouco menos de celulite nas coxas. 😉
  4. Saí de casa pelo menos uma vez por semana no inverno e, no resto do ano, pelo menos uma vez a cada dois dias (eu sou super preguiçosa para isso, mas me esforcei, mesmo que pareça pouco para algumas pessoas). Mesmo antes de ter a bicicleta, tomar um vento no rosto fazia realmente eu “arejar as minhas ideias”.
  5. Inscrevi-me em canais de autoconhecimento no YouTube. Eu não tinha televisão onde morei na Holanda (era um dormitório do campus da Universidade que meu marido estudou), mas mesmo assim acho que não conseguiria assistir a nada em holandês. Então, passei a assistir ao YouTube do celular mesmo, sempre acompanhando canais como o DesprogrAME-SE, o ThetaHealing Brasil, as meditações da Ohana Waltrick e a maravilhosa JoutJout Prazer. É claro que me apaixonei por canais de humor também, que me fizeram rir e espairecer a cabeça, mas quem sabe em outro artigo eu os indico… (se quiser que eu indique comente no final deste texto ~bem YouTuber essa frase~).
  6. Li livros com conteúdo relevante. Eu adoro ler, mas ficou cada vez mais difícil me concentrar e ocupar as duas mãos com um livro com uma pequena espoleta descobrindo que poderia engatinhar, depois andar e, mais para frente, escalar. Além disso, foram pouquíssimos os livros que consegui que coubessem na mala de mudança. Mas, ainda assim, esses e outros que ganhei de quem veio do Brasil e de amigos na Europa foram super válidos para manter a minha sanidade.
  7. Não tive receio de desabafar. Por muitas vezes, quando me pegava numa “bad”, não sabia de imediato o que estava acontecendo. Mas quando, finalmente, entendia, eu tentava me abrir com meu marido e amigas (mesmo as de longe). Esses momentos foram os mais difíceis, porque é preciso descer do salto do orgulho e da muralha da vergonha para perceber que precisamos do outro para ficarmos melhor conosco mesmas.
Leia também:  As dores e delícias do parto no exterior

Sempre em evolução

Posso dizer que superei o momento mais difícil da minha vida até agora. Foi uma viagem ao fundo do poço, mas quando a gente percebe que lá em baixo tem um trampolim, volta para o topo mais forte ainda. Ainda assim, tenho muitos problemas para encarar e mais desafios para vencer (agora na Bélgica, onde meu marido arranjou um emprego).

E, se precisar, não hesitarei em buscar ajuda. Afinal, os psicólogos, psiquiatras e terapias alternativas estão aí para isso, não é mesmo?

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9 Comentários

  1. Oi Ana , Parabéns pela a verdade nas suas palavras! parabéns pela a resiliência que está tendo. Vou embora do Brasil agora no próximo dia 14, meu marido está trabalhando em Amsterdam já fazem 4 meses. tenho uma menina de 6 anos e um bebe de 1 aninho, nunca sai do País , estou feliz , mas também morrendo de medo. Todas vocês escritoras que colaboram com essa página estão de parabéns pela a coragem. Mesmo sem saber como vai ser nesse mundo novo, já me senti acolhida e fortalecida com os as experiências de voces. Beijo grande e meu muito obrigada. Ah já ia esquecendo, quero as dicas de comédia no Youtube por favor, também não vou ter tv por um bom tempo. Bjo

    1. Autora

      Natalia, que seja uma mudança externa e interna transformadora para as suas vidas! Você também é muito corajosa em aceitar esse desafio. Vou dar as dicas de comédia em breve!😉

  2. Amei o texto, Ana! E esse fundo do poço pra mim é o puerpério. Quando a gente consegue superar dá um alívio enorme, né?! Estou muito feliz de poder acompanhar um pouquinho das suas transformações. Um beijo em você e na Flora.

  3. Que texto verdadeiro! Eu ainda estou nesse fundo do poço e ler que há uma saída me enche de ânimo. Me identifico demais com vc pois tbem fico em casa com meu pequeno de 1 ano e meio, só nós dois. No Brasil eu tinha uma carreira, amigos, outros habitos, zerei tudo para acompanhar meu marido nesse sonho louco de morar em outro país. Não há sombras de arrependimentos mas as pequenas batalhas diárias cansam e nos levam à exaustão sim. Com quem tento desabafar ouço que não devia reclamar pois estou morando na Europa, como se solidão escolhesse continente. Obrigada de coração por partilhar sua experiência, falar sobre isso é o primeiro passo para nos sentirmos melhores .

    1. Autora

      É muito difícil para quem não está na mesma situação entender o que estamos passando. Por isso acho tão importante os grupos! Mas em breve as coisas vão melhorar, ele vai crescer e você vai poder formar sua própria rede. Força!😘

  4. Estou de mudança pra Bélgica tb e sites como esse já tem me ajudado muito 😍😘 parabéns e obrigada por compartilharem

  5. Que texto fantástico, Ana! Eu costumo dizer que morar fora é uma experiência de vida que todo mundo devia ter, por que é realmente transformadora. Obrigada por compartilhar!

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