Pai e mãe praticando slow parenting com filha fazendo o jantar juntos na cozinha de casa
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Os tempos atuais têm jogado a gente para dentro de um furacão de compromissos e interações sociais, milhares de opções de entretenimento e uma competição surreal de estímulos diferentes para as crianças. O Slow Parenting (Parentalidade Desacelerada) é um movimento que vai na contramão dessa tendência de urgência de ser, ter e estar em tudo.

Quando morei nos Estados Unidos, achava curioso que as crianças estivessem sempre envolvidas em atividades extracurriculares. Um ritmo intenso de programação para que os pequenos estivessem entretidos, como se brincar em casa ou no quintal não pudesse ser uma ocupação de qualidade. 

Mãe em parque com bebê no carrinho praticando slow parenting
O slow parenting é nada mais do que não deixar a correria do dia a dia nos consumir
Foto de Oleksandr Pidvalnyi no Pexels

Chegando na Europa, percebi que havia um grande esforço por parte das famílias em não deixar a correria do cotidiano engolir a calmaria da infância. Os adultos embarcavam junto nesse processo de apreciar a lentidão. 

Slow Parenting: vamos com calma?

A decisão de desacelerar vem com a missão de viver cada momento com real engajamento, ou seja, curtir de verdade cada minutinho. 

Uma vizinha holandesa me explicou que poderia trabalhar cinco dias por semana e mandar as filhas para a creche todos os dias enquanto trabalhava. Mas como o seu trabalho (e de muitos outros na Holanda) tem opções flexíveis de cumprimento de horário, ela preferiu reduzir sua jornada. Além disso, ainda escalou os avós para olharem as crianças em conjunto. 

Nas palavras dela, a creche pode ser incrível para crianças, mas conviver de perto com os avós e criar memórias e vínculo com eles também é maravilhoso. Os avós, que também têm suas ocupações, ajeitaram suas rotinas para desacelerar junto às netas.

Avó e casal de crianças cuidam do jardim
Na Holanda, é costume os avós tirarem algumas horas da semana para cuidar dos netos e criar vínculo
Foto de Nikoline Arns no Unsplash

Basicamente, a ideia central é deixar a correria e a urgência de fora do cotidiano e desassociar o conceito de produtividade de estar sobrecarregado ou executando tudo com rapidez

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Desacelerar e se conectar com os outros é sobre estar mergulhado no que você está fazendo“, diz Carrie Contey, co-fundadora da organização Slow Family Living, que produz uma série de materiais a respeito do assunto. O movimento Slow Parenting exige priorizar. Se comparecemos a um evento, é porque na lista de eventos para ir, aquele era o mais importante. Se decidimos não ir a um encontro, é porque naquele momento ficar em casa e descansar significava mais do que fazer um social.

A priorização está muito ligada à satisfação e ao respeito com os nossos próprios limites e aos dos nossos filhos. Nós tendemos a escolher a opção que mais se adequa à necessidade do momento. Por exemplo: 

  • Marcar de encontrar apenas aqueles com quem gostamos de verdade de nos relacionar
  • Começar a se vestir com antecedência, já que o filho está aprendendo a calçar os sapatos e precisa de mais tempo para executar essa tarefa
  • Planejar o cardápio da semana e fazer as compras de acordo com os ingredientes necessários
  •  Afastar o celular enquanto passa tempo com os filhos

Nessas situações, a urgência fica de fora sempre.

Reduzir o ritmo traz muitos benefícios

Mãe beija rosto da filha em calçada de rua
Foto de Pixabay

Os benefícios do Slow Parenting são muitos, a começar por uma drástica redução na chance de alguém sofrer de estresse por acúmulo de funções. Fazer muitas coisas ao mesmo tempo ou estar sempre apressado gera irritabilidade, falta de paciência e ansiedade. Além disso, deixamos de dar o devido valor aos momentos que vivemos porque estamos num looping infinito de tarefas a cumprir. 

Fazer muitas coisas ao mesmo tempo ou estar sempre apressado gera irritabilidade, falta de paciência e ansiedade.

Vale ressaltar que uma pessoa sobrecarregada tem impactos profundos na autoestima, porque está sempre se cobrando mais rendimento diante de uma agenda insanamente desajustada. Por isso, os valores por trás do Slow Parenting são lições para a vida

  • Seu tempo é precioso, seus limites precisam ser ouvidos
  • Seu corpo e sua mente precisam de descanso
  • Há coisas e pessoas mais importantes que outras
  • Estar comprometido é estar por inteiro
  • Dizer “não” é importante
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E por aí, vai… Tudinho interligado.

De tudo que o Slow Parenting traz, o que mais me agrada é a chance de estreitar laços. Investir nosso precioso tempo nas pessoas ou atividades que amamos, imersos numa conexão profunda com elas, é nutrir um relacionamento com a nossa melhor atenção. Falo aqui de qualidade: estar genuinamente comprometido com algo ou alguém é estar ali por inteiro, com foco total. 

Pai lê livro para filha pequena e pratica assim o slow parenting
Priorizar o que é importante no momento é um conceito fundamental do Slow Parenting
Foto de Andy Kuzma no Pexels

Especificamente falando da relação de pais e filhos, os benefícios de uma relação estreita são extraordinários: crianças seguras de si, confiantes e autônomas. Nada mal levar esses ensinamentos da infância para a vida adulta, não é mesmo?

O tédio é a matéria-prima da criatividade

Um outro aspecto muito interessante do Slow Parenting é curtir o ócio.

A glamourização do “estar muito ocupado” sabota as chances do nosso cérebro trabalhar a criatividade, porque é no tédio que ela brota. O cérebro não recebe comandos. Então, ele cria seus próprios, num exercício natural que impedimos com nossa agenda abarrotada de compromissos. 

Devo dizer que o tempo menos apertado também proporciona outros aprendizados: achar beleza nas coisas simples, apreciar a espontaneidade e reservar tempo para o autocuidado. A saúde mental agradece!

Mas, mesmo com tanto benefícios, nem sempre desacelerar é possível. Nesse caso, vale a máxima de que “qualidade é melhor que quantidade“.  Ainda que só seja viável ter uma manhã livre na semana, por exemplo, o ideal é reservar esse momento com o mesmo engajamento de um evento e usufruí-lo, com toda a presença de corpo e espírito.

Mãe e filha brincam de tocar violão no sofá
Apreciar a espontaneidade ajuda muito a desacelerar o ritmo do dia a dia
Foto de Alena Shekhovtcova no Pexels

Slow Parenting é uma variante do Slow Movement

Carl Honoré, escritor e jornalista escocês, escreveu um livro-manifesto em que defende a lentidão baseando-se principalmente em sua própria experiência de vida. Depois de ver seu relacionamento com seu filho cheio de atritos por conta da velocidade com que levava a vida, o autor apostou na redução do ritmo para recuperar seu tempo.

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Em “Devagar: Como Um Movimento Mundial Está Desafiando o Culto da Velocidade“, Honoré conta como conheceu o Slow Movement. Ele destaca não apenas pontos ligados ao relacionamento entre pais e filhos, mas também outros aspectos que ganham versões melhores depois que a calma vira regra.

A história de Carl virou também assunto para um TED Talks:


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3 Comentários

  1. Excelente artigo! Eu já vinha desacelerando desde o Brasil e nem sabia que isso tinha nome e toda uma filosofia ?. Adorei!

  2. Amei esse artigo! Eu também desalererei minha vida também. Lembro da minha mãe sempre saindo de casa as pressas e isto me estressava muito. A felicidade está em curtir o momento presente não importa o quão simples ele seja. Ob

  3. Eu também não sabia que esse “ processo” tinha um nome. Logo que chegamos em Portugal sentimos essa diferença, o que nos fez muito bem.

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